País fez tropicalização de regras
Segundo Richard Lucht, realidade brasileira não permite, por exemplo, dedicação em tempo integral
A propaganda de que um MBA no currículo representa aumentos no salário e cargos melhores aos executivos é realmente uma oferta tentadora, transformou essa sigla em moda nacional. Hoje, quase todas as instituições têm suas ofertas para o tentador mercado que busca dinheiro e sabedoria. Volte ao mundo real na hora de escolher uma escola, no entanto, pode evitar frustrações mais adiante. É o que diz o conselheiro da Associação Nacional de MBA (Anamba), Richard Lucht. Como o especialista revelou na em sua entrevista, concedida ao repórter Marcos Rogério Lopes, poucos cursos do Brasil têm qualidade suficiente para serem considerados MBAs de verdade.
Quantos cursos de MBA existem hoje no Brasil e como atestar a qualidade dos mesmos?
“Eu diria que existem hoje pelo menos 9 mil cursos no Brasil que levam o nome MBA, e esse número vem crescendo dia após dia. A oferta aumentou consideravelmente na última década para atender à demanda por especialistas do mercado de trabalho, mas esse crescimento nem sempre atende às necessidades das empresas e dos executivos. É importante que o interessado confirme os rankings dos melhores cursos do Brasil e também ouça ex-alunos que já o concluíram.”
E como atender às necessidades do mercado de trabalho? Quais critérios que uma instituição precisa obedecer para ter um MBA credenciado pela Anamba?
“É exigido o cumprimento de treze requisitos básicos para qualidade. E, garanto, desses 9 mil cursos que existem no Brasil , certamente nem uma centena passa na análise das regras”.
Quantas instituições são aprovadas pela associação?
Hoje em dia, apenas seis instituições têm cursos patenteados pela Anamba. São elas: FIA, Ibmec, ESPM, BSP (Business School São Paulo), Katz (SP) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Outras instituições pediram credenciamento, mas essa avaliação leva algum tempo, por causa dos vários critérios que têm de ser obedecidos.
Esta errado, de acordo com a Anamba, cursos de MBA temáticos, para áreas específicas, como construção civil e comunicação, por exemplo?
Pode até existir um MBA para uma área tão definida, mas é muito difícil que atenda às normas internacionais. Pelo seguinte porém: exigimos, no mínimo, 360 horas de conteúdo exclusivo para administração, o que torna complicado para uma escola, sob risco de deixar o curso muito extenso, oferecer essa carga mínima e também outras disciplinas tão setorizadas.
O que a Anamba faz para coibir os falsos MBAs?
A Anamba não tem poder de polícia, não tem a capacidade de fechar ou autorizar cursos no país. No Brasil, aliás, não há controle dos cursos lato sensu, já que o MEC se restringe somente o pedido de registro das especializações às instituições. Nosso objetivo não é, apontar os ruins, mas sim valorizar as melhores ofertas do mercado de trabalho, destacando as boas escolas e orientando os candidatos interessados.
O MBA brasileiro é exatamente igual ao MBA americano?
Na realidade, não. Fazemos aqui, em alguns pontos, o que chamamos de “tropicalização dos critérios internacionais”. Lá fora, por exemplo, exigem estudo full time dos executivos. Eles ficam dois anos praticamente internados na universidade, apenas estudando, o que não é possível na nossa realidade. Desse jeito, não pedimos período integral, mas, por outro lado, cobramos das instituições uma estrutura muito bem elaborada para nutrir essa diferença em relação aos cursos de MBAs do exterior. Por isso, são necessários no mínimo 480 horas de aulas presenciais e um formato que não faça com que nossos alunos percam conteúdo em comparação com os de fora.
O que o senhor acha das instituições de ensino que vendem o curso como uma garantia de aumento de salarial e de crescimento empresarial imediato?
Eu atribuo isso ao pragmatismo importado dos EUA, até porque o MBA é originalmente norte-americano. Nos EUA, vende-se essa idéia de que “faça isso que você terá aquilo”, o que se aplica também aos ganhos imediatos que se conseguiria com os MBAs. Mas, na verdade, não é desse jeito. A pessoa que for atrás do curso sem a intenção de se dedicar ao mesmo e não souber usar seus conhecimentos em seu crescimento profissional, dificilmente vai conseguir algum ganho imediato. A postura passiva não vai ajudar a ter aumento de salarial.
Entrevista por Marcos Rogério Lopes
Publicada originalmente em
Procura por MBA volta a crescer
Número de cursos no País é estimado em cerca de 9 mil, mas é preciso tomar cuidado com a qualidade
O que há 15 anos era um curso para os presidentes das empresas, hoje é quase uma obrigação nos currículos do segundo e terceiro escalões. O crescimento dos cursos Master Business Administration (MBAs) no Brasil nos últimos tempos se deve também ao aquecimento da economia do País, mas, principalmente, à evolução das companhias nacionais, que, em muitos setores, competem de igual para igual com as estrangeiras - e, por isso, necessitam de mão-de-obra extremamente qualificada. “Nunca houve uma retração da procura, porém jamais se viu um mercado tão ávido por ofertas como o de agora”, diz o diretor educacional da Fundação Instituto de Administração (FIA), Adalberto Fischmann.
De acordo com ele, o mercado de MBA só teve certa dificuldade no fim da década de 90 e início dos anos 2000, quando a economia brasileira apresentou uma queda e as empresas, que antes custeavam até 90% das bolsas aos seus empregados, pararam de pagar. “Hoje, elas arcam com cerca de 50% do valor apenas, mas os executivos já têm mais condições de bancar o restante.”
Segundo cálculos extra-oficiais do setor - dados fundamentados não existem -, a oferta de cursos vem aumentando em 5% ao ano na última década. A Associação Nacional de MBA (Anamba) estima a existência de cerca de 9 mil cursos de MBA no País. “A qualidade do que é oferecido, no entanto, é questionável na maioria das vezes, o que pode ser um grande risco para o executivo”, diz Paulo Lemos, superintendente FGV Management, uma das divisões da Fundação Getúlio Vargas(FGV).
A FGV tem tido uma procura cada vez maior de interessados em seus MBAs , o que obriga a instituição a criar 15% de novas vagas por ano. “O nosso curso de Gestão Estratégica e Econômica de Negócios, por exemplo, não consegue atender a demanda. Prevíamos três turmas para o segundo semestre deste ano, já temos seis e estamos estudando se vamos precisar abrir uma sétima”, conta Lemos. “A pressão da concorrência interna e externa obriga as empresas a produzirem mais e melhor. E a única forma de atingir esse nível é a educação.”
EXIGÊNCIAS
A cobrança pela qualificação vem cada vez mais cedo. A média de idade dos estudantes de MBA caiu dos 37, 38 anos, registrados na década de 90, para 30 a 32 anos atualmente. As instituições de ponta também exigem cada vez mais dos candidatos. Não basta ter dinheiro e querer fazer o curso, é preciso estar muito bem qualificado. “Só aceitamos pessoas com, pelo menos, três anos de experiência em gerência, com inglês bom e condições de assimilar o conteúdo”, diz o diretor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap)-MBA, Tharcísio Souza Santos.
Tais exigências teriam, segundo coordenadores de curso, uma recompensa a curto e médio prazos. “Os executivos que iniciam o MBA ganham entre R$ 10 mil e R$ 11 mil e, após um ano e meio, quando o encerram, já subiram de cargo e recebem por volta de R$ 16 mil”, afirma Fischmann. E a evolução do holerite não pára por aí, segundo ele. “Um ano depois do curso, a faixa salarial já está perto de R$ 20 mil.”
Além da remuneração, explica a coordenadora de Desenvolvimento da Brazilian Business School (BBS), Giselle Guimarães Ramos, o ganho é imediato nas atividades diárias da empresa. “O executivo passa a ter uma visão mais ampla da gestão. Do marketing às finanças, da administração como um todo. Desenvolve a capacidade de liderança e passa a tomar decisões com muito mais firmeza e coerência.”
Artigo por Marcos Rogério Lopes
Publicado originalmente em
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